Terça
2021/07/27
9:12:53 PM

Amigos Da Canastra

Folia Das Almas

A Folia das Almas
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Ninguém sabe ao certo quando e onde surgiu o ritual da "Recomendação (ou Encomendação) das Almas”. Mas sabe-se que em Portugal, desde a Alta Idade Média, essa tradição é praticada, existindo até os dias atuais em algumas regiões interioranas do país. No Brasil, veio com os jesuítas, por volta do século XVI, que a usava no processo de evangelização.
No interior do Brasil, onde ainda é possível encontrar esse ritual, temos diferentes designações para ele, sendo mais comum encomendação ou recomendação, como é chamado em Portugal. Em São Roque de Minas, ouve-se muito a expressão "tirar pras almas. Segundo o catolicismo medieval, as almas pecadoras têm como destino o Purgatório. De lá vem a tradição de rezar para essas almas que almejam o perdão e o Paraíso. O povo, desejoso de fazer a sua parte e não tendo participação nos trabalhos da Igreja, criou a
Encomendação das Almas.
Lia Fukui (1983), em um belíssimo texto, nos dá uma visão do significado desse ritual para os praticantes:
"Durante a Semana Santa guarda-se o respeito e não se trabalha na roça; ninguém bebe – o que é freqüente em outras ocasiões -, fala-se baixo e ninguém canta ou dança músicas profanas. Mesmo quando reunidos, quase todos os moradores do bairro conversam em pequenos grupos dentro e fora de casa mantendo sempre uma atitude circunspeta.
(...) o sitiante procura sempre agradar o santo (protetor) e quando se encontra em dificuldade procura negociar uma graça em troca do pagamento feito em data e época determinada. De acordo com o pedido a homenagem pode ser simples: uma vela, uma lamparina, ou mais complicada, uma novena, uma festa, uma romaria. Pode envolver apenas aquele que faz o pedido, seu grupo doméstico, sua família ou todos os moradores do bairro.
Toda esta proteção em relação ao imponderável da vida cessa no período da Quaresma; os santos são cobertos com um pano roxo; é tempo de penitência em que „os bichos estão andejos, o mal está solto e não se tem defesa nem possibilidade de controlar ou pactuar com o sobrenatural. Todos temem os males que nesta época são maiores do que em época comuns.
Na Sexta-Feira Santa, à noite, é que o perigo maior se apresenta. Não há proteção dos Santos, Cristo está morto.
A Recomendação às almas (...) marca desse modo um momento de grande desamparo. Celebra-se no culto às almas a morte de todos. O pacto com a vida está desequilibrado, o auxílio dos santos está ausente. É o momento de apelar aos mortos, às Almas como intermediários dos mortais, como um apelo dos vivos aos mortos, em nome do desamparo da vida. "Nomear os parentes, os vizinhos, os que morrem esquecidos, os que morrem matados e as almas, geralmente as almas do purgatório, parecem tornar os mortos intermediários entre a vida e o sobrenatural16 (Fukui, 1983)”.
Esse ritual, extinto na região do Guiné e em outras regiões, ainda existe na Serrinha e Buraca (vide anexo), onde levam o nome de "tirar pras almas”. Rafael Ribeiro, 72 anos, ex- morador da região, afirma que a encomendação existia em todas as regiões de São Roque, inclusive na cidade.
Em uma crônica escrita por João Leite, em 1974, em ocorrência da inauguração da Galeria dos Filhos Ilustres da Terra, ele faz referência a esse ritual e como ele acontecia dentro da cidade de São Roque:
"(...) Mas, havia outra serenata que era um verdadeiro contraste das que acabei de descrever. Era muito triste e punha em todos nós, meninos, um grande medo. Na Semana Santa, saía da Rua do Capim, um grupo de mulheres, comandado pela Maria Pedreira, que percorria as ruas no silêncio e escuridão da noite, tirando pras almas, Nós, crianças, ouvíamos aquelas vozes tétricas e cavernosas tomados de grande pavor e espanto.
"Mas tudo isto eu relembro, com o coração apertado pela saudade, porque constituía uma verdadeira epopéia de glória e de beleza que emoldurava o meu São Roque inesquecível l17”.
Elementos que integram a Folia (encomendação) das Almas
O Ritual
O ritual da Folia das Almas acontecia na Quaresma18. "Nos quarentas dias antes da Semana Santa, todas as sextas- feiras, um bando de foliões saiam, à noite, para a Folia das Almas”19. Tradicionalmente, o ritual iniciava-se após as 10 horas da noite, horário em que a maioria das pessoas já tinha se deitado. "Horário que as almas mais gostavam20”. Retornavam antes de o dia clarear. Devido à distância entre as fazendas, visitavam de três a quatros casas por noite.
Em um número reduzido, os participantes saiam de casa em casa, nas fazendas, para cantar pras almas. Ao chegar no terreiro de uma residência, um dos integrantes batia a matraca: era o sinal para o início dos toques e cantorias. Quando o morador da residência percebia a presença dos foliões, deveria apagar as luzes da casa, permanecer no escuro e em silêncio até o final do ritual.
Pouco se cantava. Os versos eram curtos e variavam nas diferentes regiões. Na folia do Guiné, o verso inicial da cantoria era: "Alerta, pecador, alerta desse sono que vós estais”. As vozes formavam um coro com diferentes timbres. O canto era interrompido para pedir as rezas. Uma reza para cada tipo de alma (as de mortes violentas, as perdidas, as afo gadas, as aflitas etc.). Ao final da cantoria, exclamavam diversas vezes uma espécie de ordem: "reza pras almas!”. O ritual durava aproximadamente 5 minutos, não mais que isso, em cada casa.
A crônica foi escrita por João Leite, em 04 de abril de 1974, por ocasião da inauguração da Galeria dos Ilustres Filhos da Terra. Ela não foi publicada, mas distribuída entre amigos. A pesquisadora Valdete Arantes guarda um exemplar dessa crônica.
Quaresma
Parte do ciclo pascal que se inicia na quarta-feira de cinzas com periodicidade de 40 dias e termina na quinta-feira que antecede a Páscoa. É tempo de penitência, tal como proposto pela Igreja Católica, fazendo com que os ritos e cerimônias apresentem caráter religioso derivado de textos evangélicos e de conceitos populares europeus.
Trecho do depoimento de Rafael Ribeiro, 72, ex-morador da região do Guiné.
Depois de encerrado o ritual, no momento em que os foliões se retiravam, o dono da casa poderia acender as luzes e chamá- los, de volta, para um café. Normalmente, o café era rico das iguarias da culinária mineira, como o pão de queijo, o biscoito de polvilho, muito queijo e doces. Caso o dono da residência não abrisse a porta, os foliões deveriam seguir em frente, para outra fazenda, outra residência.
Alguns moradores não gostavam do barulho e não atendiam aos foliões. Era muito comum, também, o barulho assustar as crianças, que começavam a chorar.
Em noites escuras, usavam candeias ou tochas para iluminarem os caminhos.
Alguns visitados costumavam dar esmolas aos foliões. Essas esmolas eram entregues pelas frestas das janelas, já que, segundo o ritual, não era permitido abrirem a casa durante o processo. Alguns acreditavam que, se não dessem esmolas, algo de ruim poderia acontecer com eles. Os foliões, em agradecimento à esmola, deixavam nas janelas um sinal, que poderia ser uma flor.
Caso chegassem em uma casa e notassem movimentos dentro dela, não paravam.
Os Instrumentos
Os instrumentos musicais usados na Folia das Almas e nas Encomendações em geral, apresentam características peculiares. Além dos instrumentos descritos abaixo, é possível encontrar em algumas encomendações instrumentos como adufe (espécie de pandeiro artesanal), rabeca e até violão. Na Folia das Almas do Guiné só se usavam os descritos abaixo:

Matraca
Existem variações no formato da matraca. A mais comum é feita com uma tábua e em cada lado se coloca uma haste de ferro, semelhante a um puxador. O som é produzido pelo toque das hastes na madeira. O formato descrito abaixo é uma particularidade da Folia das almas, do Guiné. Uma tábua de aproximadamente 25 cm, esculpida no formato de um remo, ou raquete, com duas outras tábuas em cada lado (conforme Foto 01). Esses dois remos curtos são fixados ao cabo através de um barbante ou corda. Segura-se pelo cabo e agita-se para que as tábuas laterais batam contra a do meio, produzindo som. Em cada folia só existia uma matraca. Era o primeiro instrumento a ser tocado e o seu tocador era uma espécie de maestro, comandava os demais.

Réu-réu
Feita com um gomo de bambu ainda verde (para não "quebrar” durante a confecção). Uma das paredes do bambu é lascada de forma a deixar uma das extremidades presas. Uma roda dentada faz com que a lasca do bambu seja levantada e solta rapidamente (conforme Foto 02). O impacto da lasca de volta ao bambu produz um som seco. Girada com força, o instrumento gera uma seqüência rápida de batidas, semelhante a uma rajada de metralhadora. Também só se usava um réu-réu por folia. Era o segundo instrumento a ser tocado.

Berra-boi
O berra-boi consiste em uma pequena tábua amarrada em um barbante forte ou cordão em uma das extremidades. Na outra extremidade amarra-se um pequeno cabo, para segurar (conforme Foto 03). O toque se dá fazendo girar com força a tábua provocando um zumbido grave, semelhante a uma forte ventania. Era o terceiro instrumento a ser tocado e, diferentemente da matraca e do réu-réu, se poderia usar quantos quisessem. Tinha folia que contava com até 20 berra-bois, que provocavam um som assustador.

Personagens
Os personagens da Folia das Almas são todos chamados de foliões, sem distinção ou título específico para nenhum dos participantes. O comando da Folia fica nas mãos do tocador da matraca, que pode ser homem ou mulher.

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Creditos: Arte Canastra
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